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MERCADO DEBATE “TRAGÉDIA ANUNCIADA”

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Local do acidente (reprodução de imagem do Bom Dia SP)

“A ironia está na triste constatação de que o filme de um grande banco nacional para o Dia dos Pais deixa um saldo de quatro órfãos”.

Esse trecho do comunicado oficial da APRO (Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais), mostra a extensão da tragédia durante filmagem de um vídeo institucional para o Itaú.

O acidente ocorreu nesta quarta-feira (2) durante a gravação de um filme num galpão no bairro do Brás, em São Paulo, conhecida locação do setor. O técnico cinematográfico Carlos José da Cunha, de 41 anos, morreu após levar choque e cair de andaime de oito metros. Deixa esposa e quatro filhos.

Francisco Xavier de Jesus Bispo, de 48 anos, que o acompanhava no serviço, também caiu da estrutura, foi internado no Hospital do Tatuapé com queimaduras de terceiro grau no tronco e nos braços, mas já está em situação estável.

Responsável pelo trabalho, a Silhueta Filmes, comandada pelo fotógrafo Lucas Barreto, ainda não se pronunciou. A empresa se define como um coletivo de diretores de cena, diretores de fotografia, diretores de arte, produtores, montadores, designers e animadores.

Em sua página no Vimeo, pode-se ver comerciais para vários produtos do Laboratório Genoma, Moda Eskala, Revendedores Ford e um outro vídeo de data para o Itaú, divulgado no último Dia das Mães, em maio deste ano.

O trabalho inclusive já estava se encerrando por volta das 19 horas, quando provavelmente uma estrutura metálica encostou na rede elétrica.

De qualquer forma, o mercado retoma uma discussão antiga e mais atual do que nunca neste momento de dificuldades econômicas. Os dois técnicos vítimas do acidente não usavam equipamentos de proteção. A filmagem também não contava com apoio de ambulância, supervisão da Eletropaulo pela proximidade da fiação elétrica ou Corpo de Bombeiros.

Sônia Santana, presidente do Sindcine (Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual) baseado em São Paulo, prepara queixa-crime contra a Silhueta.

“A pressão econômica não pode justificar a contratação de uma produtora que sequer tem uma sede física, que não cumpre as regras estabelecidas pela nossa convenção trabalhista, não oferece segurança para o trabalho. Foi uma tragédia anunciada, a empresa assumiu o dolo e vai responder por homicídio culposo”, disse ela ao Blog.

Como explica Sônia, a Silhueta, fundada em 2013, é uma empresa individual, com capital social de R$ 100,00 e sede em endereço residencial em Alphaville. “Ao que consta não possui o registro obrigatório para atuar no mercado de cinema publicitário”, explicou.

“A Eletropaulo não foi comunicada do trabalho próximo à rede de alta tensão e por isso não foi feito o isolamento necessário.  O acidente mostra o quanto os técnicos de cinema estão sendo obrigados a atuar em qualquer condição, sob pena de não serem novamente chamados. O Sindcine lançará uma campanha para conscientizar as produtoras, agências e anunciantes”, concluiu.

Fazendo coro, Sônia Regina Piassa, diretora executiva da APRO, afirma em seu comunicado que na busca constante por menores preços, “os clientes não se importam de trabalhar com produtoras que não cumprem as condições mínimas de segurança exigida pelo Ministério do Trabalho e pelos Sindicatos”.

Sucinto, o Banco Itaú também nos enviou seu posicionamento sobre o acidente: “O Itaú Unibanco lamenta profundamente o ocorrido e informa que está acompanhando o caso com a empresa contratada para prestação do serviço, para garantir todo o apoio necessário.”

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