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A DOR SILENCIOSA DOS ADOLESCENTES

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Estudo revela como as mudanças do mundo afetam a vida e perspectiva dos jovens

Rita: insegurança econômica e emocional

Estudo do LAB Humanidades, unidade de estudos de comportamento da AlmapB BDO, em parceria com a Netflix, mostra que adolescentes atuais vivem em estado insegurança com relação ao seu futuro.

A pesquisa “Adolescência” apurou que não foram os adolescentes que mudaram, o que mudou foi o mundo. O Brasil não vive apenas um salto tecnológico, mas, sim, uma “mutação civilizacional”, expressão da filósofa Marilena Chauí, que significa uma transformação profunda, estrutural e duradoura na forma como uma sociedade funciona.

O levantamento revela um cenário de vulnerabilidade latente. A saúde mental é a área da vida avaliada de forma mais negativa pelos jovens.

A “sociedade da performance” transformou o ato de sonhar em ansiedade por metas. O maior medo dessa geração é não ter estabilidade financeira (83%) e 61% dizem que a pressão para ter sucesso gera ansiedade.

O trabalho contou com a execução quantitativa do Instituto Locomotiva e qualitativa da MindSharing. A pesquisa ouviu, entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, 2.800 pessoas em todo o país, dividindo a amostra para confrontar perspectivas: foram 1.600 adolescentes (13 a 17 anos) e 1.200 adultos (18+), incluindo pais e mães.

“Os adolescentes de 2026 foram socializados em um cenário de insegurança política, econômica e emocional, e desenvolveram uma percepção de mundo baseada na impermanência”, explica Rita Almeida, líder do Lab Humanidades, da Almap BBDO.

“Para entender os adolescentes, o estudo buscou compreender um estado de mundo, o momento em que os futuros consumidores e criadores de cultura estão formando suas referências, afetos, crenças e sonhos, em um mundo estruturado pela incerteza.”

Os sintomas dessa pressão são alarmantes, pois 78% já enfrentaram mudanças bruscas de humor e 58% relatam crises de ansiedade e/ou pânico. No limite dessa dor silenciosa, 37% já tentaram se machucar propositalmente e 40% já pensaram em tirar a própria vida. Nesse vácuo, 12% dos adolescentes recorrem à internet, incluindo ferramentas como o ChatGPT, em busca de orientação sobre o que fazer para lidar com problemas emocionais, número superior aos 10% que fazem terapia com profissionais.

Apesar de 98% dos adolescentes afirmarem amar seus pais, a comunicação dentro de casa apresenta falhas profundas. Existe uma assimetria na percepção da relação. Enquanto 94% dos pais acham o convívio ótimo ou bom, apenas 75% dos adolescentes concordam. Além disso, 30% consideram que a relação com os pais piorou com a adolescência. O abismo se reflete na validação emocional, já que 68% dos adolescentes sentem que suas emoções não são levadas a sério pelos adultos.

“A pesquisa traduz em dados uma realidade silenciosa. Quando vemos que a grande maioria dos pais acredita que os filhos são felizes e que a relação é ótima, mas os jovens relatam invalidação emocional e uma sensação crescente de distância dentro de casa, fica claro que as famílias brasileiras precisam construir novas pontes de diálogo para além do afeto básico, avalia Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.

O levantamento também desmistifica a ideia de que o vício em tecnologia é exclusivo da juventude, já que 85% do lazer do adolescente é online, número muito próximo aos 81% do lazer adulto. Na prática, os adultos que são pais de adolescentes usam mais redes sociais (66%) e veem mais séries (53%) que os adolescentes.

A pesquisa também aponta que a adolescência no Brasil é vivida de forma desigual entre os gêneros. O levantamento revela que 82% das meninas afirmam ter menos liberdade do que os meninos. Nas iniciações afetivas, elas enfrentam uma barreira moral imposta pelas próprias famílias. Enquanto o primeiro beijo até os 14 anos é aceito para 40% dos meninos, apenas 20% das garotas têm a mesma validação.

Esse cenário de restrições cotidianas é agravado por uma cobrança desproporcional, já que 76% delas sentem que “são cobradas como adultas, mas tratadas como crianças”.

O estudo expõe um erro de cálculo da publicidade, mostrando que 63% dos adolescentes não se sentem representados pelas campanhas atuais. Eles identificam de longe o discurso ensaiado, exigem narrativas genuínas (64%) e confiam mais na indicação de amigos (57%) do que em anúncios tradicionais.

Com baixa autonomia financeira, já que apenas 35% recebem mesada regular, eles vivem o paradoxo de cobrar sustentabilidade enquanto gastam o dinheiro que têm prioritariamente com roupas e acessórios (56%), além de comida e bebida (46%).

No que diz respeito a personalidades e conteúdos que fazem parte do repertório cultural e, consequentemente, são mais familiares aos adolescentes, nomes do universo dos games e do entretenimento oriental, como o streamer Nobru (86%), o grupo de K-pop BTS (77%) e a série Round 6 (95%), são os mais conhecidos entre eles. No caso dos adultos, esses números baixam para 53%, 57% e 79%, respectivamente.

“O entretenimento ocupa hoje um papel estruturante na vida dos adolescentes.  É onde eles processam emoções, constroem identidade e se conectam com o mundo ao seu redor. Entender essa audiência passa por observar não apenas o que eles assistem e consomem, mas o tempo de qualidade com a família e o significado que atribuem às suas histórias favoritas. Esse estudo reforça o poder do conteúdo como um espaço de conexão real, capaz de aproximar gerações e gerar relevância cultural”, afirma Leo Khede, diretor sênior de Publicidade da Netflix para América Latina.