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SEM MEDO DE SER CRIATIVO. E FELIZ

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Antonio, da dupla Los Cabras

Em junho do ano passado a Damasco Filmes apostou na dupla Los Cabras para aumentar sua participação no mercado publicitário.

Composta pelo cearense Antonio Adriano Brito e o paulista Thiago Reys, a dupla vinha de uma trajetória vitoriosa de dois anos na Trator Filmes.

Diretores que se complementam com suas visões artística e técnica da atividade, eles somam pensamentos e expressões para realizar um trabalho de qualidade.

Nesta entrevista, vamos falar também da outra vida de Antonio, como a drag queen Maluvitta, personagem que acaba se misturando em sua vida real e é a vitrine do lado imaginário desse profissional formado em cinema, computação gráfica, design e produção multimídia.

Quando você decidiu juntar todas essas habilidades para dirigir filmes?
O audiovisual esteve fortemente presente durante minha juventude, era isso que eu queria fazer e pra isso que eu dedicava meu tempo livre. Ainda não sabia o que especificamente, por isso fui me jogando em diferentes cursos e oficinas, desde web design na época do boom da internet até fotografia, design gráfico entre outros. De repente já dirigia sem nem me dar conta disso. Depois de uma formação no Instituto Criar de TV e Cinema, tive também a oportunidade de estudar história e outras técnicas no cinema.  Como motion designer em produtora, cansei de ficar “preso” na ilha de edição recebendo os roteiros e participando apenas de pós-produção. O mesmo acontecia com Thiago Reys na mesma ilha. Assim nasceu Los Cabras, inicialmente um trio com Rafael Araújo, que depois foi trabalhar no exterior, para produzir e executava suas ideias de audiovisual.

Maluvitta, personagem e vida real

Como diretor de cena você tem como meta fazer um longa?
Sim, contar histórias é fascinante e não quero me limitar apenas à publicidade. Principalmente sobre minha vivência na comunidade LBGTQ+ que me conecta com várias histórias inspiradoras, e por diversas vezes pensei que “isso dava um filmão”. E mesmo com toda dificuldade de realizar um longa, eu ainda coloco isso como meta.

A direção de filmes publicitários te proporciona prazer, além de dinheiro?

Criar me proporciona prazer, publicidade é criar, logo eu consigo achar um fator interessante nisso. Los Cabras é uma dupla que sempre conseguiu construir e agregar junto com os criativos das agências e é isso que me mantem vivo no trabalho. Cada projeto é um desafio novo. Exemplo disso foi trabalhar para Netflix com um teaser para a série “Super Drags”, foi incrível, tanto pela ideia e conteúdo quanto pela oportunidade de dirigir algo relacionado a minha realidade. Foi um dos processos criativos que mais me empolgou. Consegui usar todo meu repertório drag,criando desde linguagem, cenário e brifando figurino.

Quando você encontrou espaço e tempo para viver Maluvitta?

Felizmente a flexibilidade na minha rotina de diretor permite momentos e horários livres. Quando surgiu a oportunidade de um curso sobre arte drag eu não pensei duas vezes. Era algo novo, desafiador e que naquele momento me parecia um passatempo interessante em um momento da vida que eu me enxergava, me descobria e me permitia cada vez sendo quem eu queria ser.

Antonio com Gloria Groove e o parceiro Thiago

Essa personagem seria aceita pela comunidade de Quixeramobim?
Ser drag é um ato político, de arte e expressão. Acredito que as drags não foram feitas simplesmente para serem aceitas e sim para trazerem pautas em questão, de diferentes formas e conceitos. Então vai causar impacto tanto lá quanto aqui. Estive em Quixeramobim para uma viagem de férias com minha família e resolvi usar a arte drag lá para fazer uma sessão de fotos em minha terra natal. Foi uma experiência maravilhosa. Espero um dia poder voltar e impactar mais pessoas com uma performance de maior alcance. Muitos amigos e parentes de lá me acompanham pelas redes sociais e sinto que o retorno é positivo.

Já sofreu algum tipo de preconceito na publicidade?

Infelizmente o mercado publicitário é carente de diversidade, é muita normatividade masculina no comando, embora seja uma área ligada à arte e comunicação. Quanto mais diversidade real estiver presente na publicidade mais seremos livres para criar. O preconceito velado ou de forma indireta já chegou em mim, aquele olhar torto ou riso já me atingiu.  Algumas vezes que me apresento para alguém como o diretor eu noto que a expressão de surpresa aparece, e mesmo tendo alguns privilégios na sociedade eu percebo que a construção da imagem de um diretor para as pessoas ainda é de um homem branco hétero, e é por isso que LGBTQs, mulheres e negros lutam por mais espaço.  O preconceito está muito mais presente no próprio cotidiano e trabalho das pessoas, noto isso em comentários de uma reunião, em uma piada do próprio roteiro ou rótulos dos personagens. Por isso já me permiti estar no set de filmagem montado “in drag”, justamente para abrir esse espaço, quebrar paradigmas e dizer que existem muitas possibilidades e formas de se criar, executar e inspirar pessoas. Eu transporto toda coragem da Maluvitta para o Antônio.

Na dupla com Thyago Reis quem é quem?

Costumo dizer que somos diferentes e é por isso que somos uma dupla, nos complementamos. Cada um com sua realidade e vivência. Eu venho de uma bagagem mais criativa, artística e visual, adoro pesquisar e ver a coisa tomando forma no set. Já o Thiago vem de uma experiência mais técnica, já passou por diferentes funções. Ele adora devorar livros sobre cinema e sabe qual o melhor equipamento para chegar no resultado que precisamos. Assim, aprendemos a nos respeitar, nos ouvir e somar pensamentos e expressões para realizar um trabalho de qualidade.