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Mulheres consolidam seu espaço no último reduto majoritariamente masculino da propaganda

Joanna: Café com Leite

O aumento do território feminino na publicidade não é tão significativo na Criação como nas áreas de Atendimento, Planejamento e Mídia.

De carona no pioneirismo de duas diretoras de arte estrangeiras, a alemã Helga Mietke, da DPZ, e a suíça Magy Imoberdorf, da Lage & Magy, a partir do final dos anos 80, criativas brasileiras mostraram que talento, determinação, liderança e capacidade profissional não eram atributos inerentes ao gênero masculino.

A história da publicidade do país, então, passou a registrar publicitárias de sucesso como Christina Carvalho Pinto, Ana Carmem Longobardi, Camila Franco, Rose Ferraz e Adriana Cury, entre tantas outras. Hoje, um time de diretoras de Criação dos maiores grupos de comunicação do país comprova a igualdade de gênero no comando de equipes, equiparando-se em cargos e remuneração.

CCO da FCB e eleita a Mulher Mais Criativa do Mundo em 2014, Joanna Monteiro afirma que sentiu discriminação em vários momentos. Ela diz que a maioria das mulheres era tratada como Café com Leite, e que as mesmas ideias apresentadas por elas, nunca ouvidas até o final, eram festejadas quando ditas por homens. E que eles repetem o que uma mulher já falou como se ela fosse incapaz de explicar o que eles são incapazes de ouvir.

“E tudo bem se me chamarem aqui de maluca ou descontrolada. É o que somos, muitas vezes por fazer as mesmas coisas que transformam os homens em ousados e corajosos. Digo isso no presente porque houve avanços, mas ainda estamos longe de mudar essa situação. A Criação sempre foi muito competitiva. Envolve egos, salários altos e poucas vagas de liderança, o que acirra ainda mais a briga por boas cadeiras”, diz.

A CCO da FCB, lembra que por essas razões muitas mulheres se afastaram e outras tantas foram afastadas da área criativa, gerando um gap que só traz o atraso de uma indústria que vai ficando cada vez menos criativa e menos competitiva.

“Nunca pensei em ter remuneração diferente. Agora, para poder mostrar a capacidade criativa, a capacidade de gestão, de critério, depende da capacidade de alguém dar a chance para que você o faça. A gente vai pegando na unha, aproveitando cada oportunidade, mas não somos encorajadas. Na verdade, somos desencorajadas na maioria das vezes”, desabafa.

“O homem falhar é aprendizado. A mulher falhar é a confirmação de que ela não deveria estar ali. Sem falar que a rede de apoio aos homens é muito maior e comum. Claro, e ainda bem, que muitos homens já não pensam assim. E que bom, porque não se faz revolução sem toda a sociedade. E isso inclui homens com pensamentos progressistas e mulheres que não sejam machistas”,

Christina: prêmios incomodaram

Primeira mulher a presidir uma agência multinacional no Brasil, Christina Carvalho Pinto diz que nunca temeu ser discriminada, mas sentiu essa agressão em determinado momento da carreira. “É uma forma de violência”, decreta.

Atual sócia e presidente do grupo Full Jazz, Christina começou trabalhar aos 17 anos, acolhida como estagiária e depois como redatora júnior, por três brilhantes redatores, todos homens: Arthur Amorim, Erazê Martinho e Luiz Tadeu.

“Aprendi muito com eles. Tenho grande facilidade de relacionamento simétrico com o mundo masculino, e isso acontece porque sou o número cinco de uma família de seis filhos, em que os quatro mais velhos são homens. Também porque contei de forma decisiva com minha mãe em minha formação psicoemocional’, diz.

A discriminação ocorreu quando começou a ganhar prêmios, o que irritou alguns colegas.

“Na época, o Clube de Criação de São Paulo era dominado por um clã fechado, um Clube do Bolinha liderado por um diretor criativo que se manteve por muitos anos à frente do Clube. Eles chegaram ao ponto de retirar meu nome da lista dos presidentes do Clube, cargo que exerci por um bom tempo. Quando percebi esse jogo medíocre, resolvi fazer um teste: inscrevi na premiação do Clube uma campanha que eu havia criado para a Revista Pais & Filhos, omitindo meu próprio nome. Na entrega dos prêmios, ao ganhar a única medalha de Ouro na categoria de mídia impressa, subi ao palco para receber o prêmio. Muitos anos depois esse colega, chorando, me abraçou e pediu desculpas. Perdoei, de todo coração”, conta.

Christina afirma também que nunca pensou se teria os mesmos direitos dos homens, porque isso lhe parecia óbvio.

Laura: privilegiada

“Em um almoço, Roberto Duailibi disse que eu e Washington Olivetto éramos os profissionais com a mais alta remuneração do mercado. Respondi que se o mercado nos remunerava assim, é porque valíamos. A matriz da Young & Rubicam sempre achou justo o que eu ganhava. Em oito anos, aumentamos a receita e a lucratividade da agência e entregamos uma coleção de prêmios”, finalizou.

Diretora de Criação na Y&R, Laura Estevesse considera uma exceção. Diz que mesmo em um ambiente majoritariamente masculino, sempre teve a sorte de trabalhar para pessoas que lhe ofereceram oportunidades proporcionais à sua ambição, dedicação e esforço.

“Por isso, além de me sentir em pé de igualdade, ainda me sinto privilegiada. Então, o mínimo que posso fazer é dividir esta oportunidade com as outras mulheres da nossa Criação e colegas da indústria. E, no meio de tantos exemplos desanimadores do lado de fora, ser um tijolinho de um projeto sólido para mais mulheres do lado de dentro”, afirma.

Laura conta que desde cedo percebeu que tinha o direito de ter a mesma remuneração masculina. “Meu pai é engenheiro e me levava aos finais de semana para organizar as contas da empresa. Lidar com finanças e organizar o fluxo de caixa não era opcional. É importante, para homens e mulheres, além da habilidade criativa desenvolvermos uma gestão pessoal de investimento”.

Mariângela: amigona

A criativa fala sobre fazer parte de um grupo que vem mudando a percepção da presença feminina na área: “faço parte de um time puxado por grandes exemplos, como minha madrinha de casamento e de vida, Joanna Monteiro. Tenho ao meu redor exemplos femininos para me espelhar e nortear”, concluiu.

Mariangela Silvani, que acabou de deixar a direção criativa da Grey, diz que sentiu os efeitos da discriminação desde que começou na propaganda. “As mulheres sempre foram minoria na Criação. Mais do que me sentir invadindo um espaço demarcado, que não era meu, sempre tive o desejo de pertencer a ele. Por um tempo cheguei a falar e me comportar como os meninos. Virei o companheiro, a amigona. Mas para mim, para as agências e principalmente para as marcas para as quais trabalhava, percebi que ser, sentir, pensar e escrever como mulher é que fazia e faz toda a diferença”, garante.

Para ela, a liderança masculina não é o maior problema e sim o chefe machista. “Não gosto da ideia de luta sexista. Pessoas de qualquer gênero tem que ser respeitadas pelas suas diferenças. Não vou desistir jamais de contratar, valorizar e contribuir para o crescimento e reconhecimento profissional de outras mulheres”, completa.

Andrea: orgulho da trajetória

Diretora Executiva de Criação da BETC/Havas, Andrea Siqueira confessa que várias vezes sentiu discriminação de gênero e adotou algumas medidas para enfrentar o problema.

“No início da carreira evitei usar vestido e saia muitas vezes para não ser infantilizada nas reuniões. Sempre foi difícil”, afirma. “Mas sempre fui aquele tipo de pessoa inconformada que lutava pelos direitos, desde a escola. Fui líder de classe, essas coisas”.

Hoje, numa posição de comando da mais masculinizada área da propaganda, diz que faz questão de contratar, incentivas e reconhecer mulheres no seu time.

“Tenho orgulho de ser mulher, orgulho da minha trajetória. Já fui professora da Miami Ad School, faço algumas mentorias. Me sinto na responsabilidade de devolver para o mercado um pouco de tudo que aprendi”, concluiu.

Ana: piadas e desaforos

Diretora de Criação da WMcCann, Ana Castelo Branco diz que é de uma geração que não prestava tanta atenção à discriminação no trabalho.

“A gente enfiava a cara no trabalho e respondia às piadinhas com algum desaforo. Mas foram inúmeros momentos. Desde o boatinho que eu tinha caso com meu chefe, até ouvir que eu era um menino pelo simples fato de trabalhar muito e bem. E o mais engraçado, eu ficava orgulhosa com este tipo de elogio. Nós ficávamos. Agradeço muito à nova geração feminina que todos os dias abre muito meus olhos para situações que eu considerava normais e que, hoje em dia, não deixo mais passar em branco”, afirma.

Sobre equiparação salarial, conta que há muitos anos, ela e outros dois colegas criativos ganhavam o mesmo baixo salário. “Um dia, nosso chefe prometeu arrumar nossa vida. E lá veio um belo aumento. Esses colegas citaram o valor que receberam e descobri que era bem acima do meu. Pedi para conversar com nosso chefe e ele me ofereceu uma longa explicação do tipo veja bem, eles são casados, blablablabla. Acho que foi a minha primeira palestra feminista.

Sophie: silêncio é mais cruel

“Hoje, tenho muito orgulho de mim e de todas as minhas colegas de profissão. Graças a nós e ao nosso trabalho, passamos de raridades no mercado, para figuras reconhecidamente essenciais e até mesmo presenças exigidas pelos clientes. Foi um caminho longo e muito suado. Ainda há muito a percorrer e melhorar, mas há 26 anos, quando comecei a trabalhar em agências, não imaginava que chegaríamos tão longe, e nem tão juntas”, conclui.

Sophie Schonburg, diretora de Criação da Africa, diz que em sua trajetória conheceuhomens, chefes e parceiros alguns graus menos sexistas que a maioria, mas isso não quer dizer que o machismo não estava presente.

“Assim como qualquer tipo de preconceito, o machismo não precisa ser sempre óbvio e gritar para ser agressivo. Às vezes, quanto mais silencioso, mais cruel”, constata. “Ele sempre existiu e ainda existe. E não é sobre estar invadindo um território ainda muito masculinizado, e sim ouvir discriminações sobre questões mais amplas, inclusive por parte de mulheres.  Outro dia, escutei de uma criativa bem mais jovem o seguinte argumento para eu não contratar uma outra criativa: ela está na idade de querer engravidar. Eu, que tive dois filhos ao longo da minha carreira, me senti duplamente ofendida”, conta.

Sophie começou na carreira como estagiária, desde o início da faculdade. “Já comecei na criação, como redatora, e ali fiquei. Isso foi no começo dos anos 90. Naquela época, existiam algumas mulheres na criação, poucas, mas que me influenciaram bastante”, lembra. “A presença das mulheres na criação não era algo debatido, nem para o bem, nem para o mal. O machismo, intrínseco à nossa sociedade, se perpetuava em piadas de mau gosto e na falta de confiança no taco feminino. Nunca deixamos de defender remunerações iguais. A consciência sobre esse direito sempre existiu, mas é algo que na realidade foi se ajustando ao ritmo de mudança do mercado”, esclarece.

Ela explica que agências e outras empresas estão preocupadas, em primeiro lugar, em serem lugares mais humanizados, onde existe mais bem-estar e menos hostilidade. E que isso inclui equidade de gêneros, raças e nenhuma tolerância ao assédio moral e sexual. “Mas estarmos discutindo isso ainda em 2019. É sinal que falta muito chão”, diz.

“O importante é ver que as agências estão se mexendo para aumentar o quadro de mulheres na Criação, independente de qual razão elas tenham. O ponto que ainda temos que dar muita atenção é que essa lista de nomes de mulheres ainda é pequena.  O reconhecimento internacional é reflexo não só desse trabalho de atração e do olhar para a contratação de mais mulheres, mas também do desenvolvimento desses talentos femininos dentro de casa”, conclui.

Keka: sem olhar para o lado

Diretora Executiva de Criação da Almap BBDO, Keka Morelle explica que nunca passou pela sua cabeça achar que poderia estar sofrendo discriminação.

“Eu sempre coloquei o meu trabalho na frente de qualquer relacionamento profissional. Sempre mantive uma certa distância, aquele círculo de proteção onde poucas pessoas entram. Mas o que eu sempre soube era que eu jamais teria a proximidade que meus amigos tinham com nossos chefes. Hoje em dia, o cenário é diferente. Com mais diversidade nas agências, esses problemas diminuíram muito”, afirma.

Eu sempre lutei pelo que achava que merecia, sem olhar muito para o lado. Raras vezes tive que pedir aumento e algumas vezes já ganhei mais que meus duplas homens. Só que esta profissão é feita de relacionamentos. Acho que perdi algumas oportunidades profissionais por isso, mas aprendi com o tempo que mesmo perdendo algumas vezes, o melhor jeito de construir uma carreira é com foco no trabalho”, acredita.

Para ela, contribuir para consolidar a presença feminina na Criação é continuar fazendo o melhor trabalho possível, respeitando os seus limites e usando sua carteirinha de ECD com responsabilidade. “Como mulher, diretora de arte e ECD, me sinto responsável em contribuir com pontos de vista mais diversos para as marcas. Também tenho que agradecer muito às mulheres que colocaram este assunto no colo e estão mudando os números. Iniciativas como More Girls, 65/10, Ladies Wine and Design fazem a diferença”, finalizou.

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